Saturday, December 12, 2009

A Ordem Natural das Coisas - António Lobo Antunes

Vinte e cinco de Agosto, signo Virgem, mas aonde mercúrio e que planetas?, a dor sobre outra dor e outra dor como os prédios de Benfica que nos beberam a vida e o passado, não quero visitas nem comprimidos, nem comer, o meu avô tombado na secretária, os revólveres no soalho, um espirro de mil gotas no papel, Faça força, prédios sobre as cegonhas, sobre as palmeiras, sobre o horizonte de Monsanto, e o meu pai Filha filhinha filha faça força, Não quero mais soro pai, não quero mais cobalto, não quero melhor cara, não quero estar mais gorda, Tu não querias viver e eu obriguei-te, querias ficar em mim mandei-te embora, e uma voz Já se vêm os cabelinhos, faça força, e de queixo no peito vi o sangue e a criança, de cabeça para baixo, oleosa e escorregadia e suja de mim e dela e enrugada, ligada a mim por uma trança, Filhinha, disse o meu pai, filha, filhinha, e a minha irmã ao telefone Não desligues ainda, tenho medo, e a minha irmã de Argel Para quê tanto sofrimento, Santo Deus?, e levaram-me para o quarto numa cama de rodas que chiava, e trouxeram-te lavada e vestida e de cabelo preto, de pálpebras tumefactas como amêijoas, e era de tarde e iria em breve escurecer e pedi que te deixassem no meu colo, acenderam a luz da cabeceira, ergueram-me da cama com a manivela da grafonola do sótão e uma ópera ou um tango ou uma valsa começou a tocar, e achei-te em paz e quieta e não choravas, o odor de uma macieira lá fora devolveu-me à memória o agridoce denso suave leve aroma do caramanchção, das tílias, das perpétuas, dos jacintos, nas manhãs de primavera do jardim, iluminando o corredor da casa, arrumei melhor a criança, que dormia ou se habituava ao mundo, nos meus braços, puxei-a para mim, filha filhinha, filha, o meu avô inerte, a manta a deslizar-lhe dos joelhos, e eu Quanto tempo? e o meu sobrinho Muito tempo, tia, muito tempo, paramos as injecções, paramos o soro, paramos o cobalto, e o cabelo outra vez castanho e abundante e a crescer de novo, colocaram o jantar num tabuleiro cromado à minha frente, sopa de legumes, peixe, pêra cozida, um jarro de água calma, e a enfermeira, de touca, abriu a porta e eu pedi Não leve a menina que daqui a nada ela cresce e eu perco-a, daqui a nada cessa de ser minha e por tão pouco tempo o será, desabotoei a camisa, descobri o peito, encostei-te devagar a ele, afaguei-te com o mamilo a testa, o contorno das faces, o nariz, e quando te me introduzi na boca o odor da macieira ensombrava-te a face, a certeza de que não havia de morrer, de que não morreria nunca aumento o meu sangue, senti na pele, ou por dentro da pele, os caninos que não tinhas, e enquanto de mim para ti me esvaziava, filha, compreendi que nascia.